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Mulher sentada num cais colorido em El Remate, no Lago Petén Itzá, Guatemala, de braços abertos — viagem transformadora e viajar devagar
Uma crónica pessoal sobre três meses na Guatemala, em El Remate e outros lugares, que mudaram para sempre a minha forma de viajar — e de viver. ©Sónia Justo - Lovely Lisbonner

A Guatemala mudou a forma como viajo (e a minha vida)

Fui para a Guatemala com um bilhete de três semanas.
Sem grandes planos, sem certezas absolutas.
Acabei por ficar três meses.

Nem sempre foi fácil. Houve dias de cansaço, solidão e lágrimas. Mas valeu cada segundo, cada lágrima e cada sorriso. Foi ali, longe de tudo o que conhecia, que aprendi a viajar devagar, a ficar mais tempo, a ouvir mais e a aceitar que viajar não é fugir. É ficar.

A Guatemala não foi apenas uma viagem.
Foi o início de uma nova forma de estar no mundo.

Antes da Guatemala

Antes da Guatemala, houve uma mudança de vida profunda.
Deixar um trabalho estável de 14 anos por iniciativa própria.
Vender a casa.
Vender o carro.
Doar quase tudo o que tinha, dos talheres à máquina de lavar roupa.
Fiquei com algumas roupas, as plantas, alguns livros e a Bimby.
Aluguei uma casa com duas desconhecidas.

Tinha também terminado uma relação amorosa.
Era o fim de várias coisas ao mesmo tempo.

E decidi ir viajar. Sozinha. Aos 45 anos.

Não fui eu que escolhi a Guatemala.
Na realidade, foi a Guatemala que me escolheu a mim.

Quem ia comigo acabou por não poder ir. E até ao último segundo, já sentada no avião, ponderei não partir. Mas havia algo mais forte. Uma sensação difícil de explicar. Aqueles momentos raros em que parece que tudo faz sentido ao mesmo tempo. Como se os astros se alinhassem.

Nesse dia, arrisquei.

A chegada foi tudo menos suave. Ainda no aeroporto, levava bananas na mochila quando fui cercada por cães e militares. Os cães farejaram algo, eram só as bananas, mas durante alguns minutos fiquei ali, parada, a tentar perceber se tinha feito algo errado. Não tinha( tecnicamente tinha, porque era proibido levar fruta de outro país para a Guatemala). Mas correu tudo bem. Mas foi o primeiro aviso.

O segundo veio logo a seguir. O carro que fazia o transfer até Antigua era blindado, com vidros fumados. Quando perguntei porquê, o motorista respondeu com naturalidade que era normal. Disse-me também que Antigua era uma cidade segura — e acrescentou, como quem tranquiliza, que se alguma vez me sentisse em perigo havia botões de pânico espalhados pelas ruas.

Não fiquei muito descansada. Ri-me.
Mas percebi ali, logo à chegada, que esta viagem não ia ser confortável. Ia ser real.

Três meses sem cronologia

Sónia a viajar sozinha na Guatemala, com vista para o Lago Atitlán, durante uma viagem transformadora
Lago Atitlán, Guatemala. Um dos lugares onde tudo começou a abrandar. ©Sónia Justo – Lovely Lisbonner

A Guatemala foi feita de histórias sobrepostas, de peripécias improváveis, de choro e de alegria em doses intensas. Houve momentos difíceis, outros absolutamente luminosos, e sentimentos tão fortes que só agora, com a distância de três anos, consigo finalmente escrever sobre eles.

Talvez antes fosse cedo demais.
Talvez fosse preciso tempo para que tudo assentasse.

E mesmo assim, ainda hoje, não consigo escrever sobre a Guatemala sem que as lágrimas apareçam. Lágrimas de saudade, de emoção, de orgulho em mim. De admiração por ter arriscado e vivido algo que sempre quis: passar meses a viajar.

Saudades daquela sensação irrepetível de estar a fazer algo extraordinário pela primeira vez. Na verdade, várias coisas pela primeira vez.

Viajar devagar (sem romantizar)

Mulher local a arrumar bagagem no interior de um chicken bus na Guatemala
O quotidiano dentro de um chicken bus na Guatemala — viagens lentas, simples e profundamente humanas. ©Sónia Justo – Lovely Lisbonner

Na Guatemala, vivi dias absolutamente incríveis. Subi vulcões, nadei em lagos, caminhei na selva ao amanhecer e ao entardecer. Fiz quilómetros e mais quilómetros em carrinhas partilhadas, sem ar condicionado, por estradas péssimas, onde os condutores arriscam tudo.

Numa dessas viagens, achei mesmo que era o fim. Que aquele podia ser o meu último dia.

Atravessei fronteiras terrestres que pareciam saídas de um filme, com pessoas a cruzarem a pé, galinhas na mão. Tive de me fazer de desentendida várias vezes, ignorar o assédio, estar atenta. Ser mulher a viajar sozinha tem sempre um risco acrescido.

Mas também vi a bondade de estranhos.
A solidariedade das pessoas mais simples.
O verdadeiro espírito de comunidade.
E a forma silenciosa como as mulheres se protegem entre si.

Sem dar por isso, passei a fazer parte desse movimento informal: estar atenta, proteger, cuidar também de outras mulheres.

Conheci pessoas pelo caminho, locais e viajantes, algumas das quais ainda hoje acompanham a minha vida à distância.

Viajar devagar não significa que é sempre bonito. Há cansaço, silêncio e solidão.
Mas há uma liberdade real que nunca mais encontrei de outra forma.

Histórias que ficam

Canoas no Río Dulce, Lago Izabal, Guatemala
Vida local no Río Dulce, na ligação ao Lago Izabal, Guatemala. ©Sónia Justo – Lovely Lisbonner

Histórias tenho muitas.
De uma reação alérgica a mosquitos que me levou ao hospital, já no Belize.
De como se esqueceram de mim em duas situações diferentes, e de como tive de resolver tudo sozinha para não perder um barco ou um voo interno.
De ter entrado no carro errado ao mudar de cidade.
De um apagão que deixou a ilha de Flores (e a zona de El Remate, onde eu estava) sem eletricidade durante três dias.

De como perdi a vergonha e comecei a falar espanhol, para que não me tentassem enganar.
Da Dona Paty, que me recebeu em sua casa e me convidou a almoçar com a família porque era feriado em Antigua e estava tudo fechado.
De chegar a um hotel e descobrir que tinham cancelado a minha reserva e enviado a reserva do quarto para um hotel num bairro pouco recomendável.

E das inúmeras vezes que assisti ao  nascer e ao pôr do sol, e em que pensava, quase incrédula: que sorte a minha estar a viver isto.

Pôr do sol no Lago Atitlán, na Guatemala, com barcos tradicionais e vulcões ao fundo
Pôr do sol no Lago Atitlán, um dos lugares mais marcantes da minha viagem pela Guatemala. © Sónia Justo – Lovely Lisbonner

Houve momentos em que tive de confiar só em mim

Houve também o dia em que atravessei por terra do México de volta para a Guatemala, no Domingo de Páscoa. Durante catorze horas numa carrinha, éramos apenas dois: eu e o motorista.

Desde o início sabia que não podia adormecer. Sou daquelas pessoas que adormecem facilmente em viagens – no carro, no avião, no comboio – e ali isso não era uma opção. Tinha de me manter alerta, acordada, atenta a tudo.

A certa altura, acompanhava o percurso no telemóvel. O sinal perdeu-se. Quando voltou, percebi que nos estávamos a afastar da fronteira em vez de nos aproximarmos. Foi um daqueles momentos de luta interna: digo alguma coisa ou fico em silêncio? Como dizer? O que dizer? Como mostrar que estou atenta sem soar acusatória?

Mantive o sangue frio e comentei, de forma neutra, que o percurso parecia diferente da última vez que tinha ido para a fronteira. Nunca tinha feito aquele trajeto antes, mas foi o que me pareceu mais seguro dizer naquele momento.

Ele respondeu com naturalidade que estávamos a fazer um caminho alternativo por causa de bloqueios na estrada,  algo relativamente comum naquela região, quando as populações cortam vias para reclamar de alguma coisa. Eu sabia que isso acontecia. A explicação fazia sentido.

Mais à frente, parámos numa estação de serviço que parecia saída de um filme: um pequeno café, duas bombas de combustível e alguns homens sentados em cadeiras velhas no exterior, a beber. Saí para ir à casa de banho apenas com a mochila pequena, com o receio real de que, quando voltasse, ele já não estivesse lá.

Antes disso, partilhei a comida que levava com ele. Não por gentileza, mas por uma ideia muito clara que me atravessou a cabeça naquele momento: ele não vai fazer mal a quem partilhou comida com ele.

Correu tudo bem. Chegámos ao destino. Mas nunca me esqueci dessa travessia.

Trabalho, criação e pertença

Chicken buses coloridos num terminal rodoviário da Guatemala, meio de transporte típico do país
Os famosos chicken buses: caóticos, coloridos e absolutamente inesquecíveis. ©Sónia Justo – Lovely Lisbonner

Durante esse tempo, aconteceram coisas muito boas a nível pessoal e profissional. Enquanto viajava, criava conteúdo para uma agência de viagens e gravava a rubrica Cine Travel para o programa Cine Tendinha, na SIC Radical.

Um sonho de criança tornado realidade.

Houve dias longos a escrever, filmar e editar, intercalados com mergulhos no Lago Atitlán ou em El Remate. Longas caminhadas. Silêncio.

Em El Remate, fiquei no alojamento do Sr. Humberto, que me tratava como se fosse filha. Ali conheci um casal do Reino Unido que viajava há seis meses com os três filhos. Cuidava das crianças algumas horas enquanto editava vídeos no alpendre, para que os pais pudessem organizar o resto da viagem.

Ganhei vários desenhos da Elza, a filha mais velha. Ainda hoje os guardo.

Desenho oferecido por uma criança durante uma viagem à Guatemala
Um dos desenhos que a Elza me ofereceu na Guatemala — pequenas memórias que ficaram para sempre. ©Sónia Justo – Lovely Lisbonner

O regresso (ou a dificuldade dele)

Antigua, na Guatemala, ao entardecer, com o vulcão ao fundo
Antigua ao entardecer, com o vulcão a desenhar o horizonte. ©Sónia Justo – Lovely Lisbonner

Quando voltei, estava exausta. Com fadiga da decisão. Cansada de mudar constantemente de lugar. Mas, ao mesmo tempo, não queria regressar.

Ou melhor, queria… mas não completamente.

O choque cultural não foi ao chegar à Guatemala. Foi ao voltar a Lisboa. Demorei semanas a adaptar-me. Durante muito tempo, senti que aquela já não era a minha casa. Que a minha casa era ali, na América Central. Na Guatemala.

Voltei várias vezes ao longo de três anos. Liderei viagens de grupo. Este ano fiz uma pausa. Sei que um dia regressarei. Mas, por agora, é um “até já”.

Porque a Guatemala ficou para sempre

A lone woman sitting by the lake in Guatemala contemplating the landscape during her first solo trip
Momento de contemplação à beira do Lago Atitlán, na Guatemala — uma das experiências mais marcantes da minha primeira viagem sozinha pela América Central. ©Sónia Justo – Lovely Lisbonner

Fui muito feliz na Guatemala.
O país onde renasci.
Onde o amor e o lugar se confundiram, e onde aprendi a deixar ir. ❤️

💡 Dica Lovely Lisbonner – Se estás a planear uma viagem à Guatemala (ou a outro destino), recomendo sempre viajar com um bom seguro de viagem. É uma despesa pequena que faz toda a diferença quando algo inesperado acontece — eu sei-o bem.
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